“Na tarde deste mesmo dia, como já havíamos antecipado, chegou à redacção uma carta da morte exigindo, nos termos mais enérgicos, a imediata rectificação do seu nome, senhor director, escrevia, eu não sou a Morte, sou simplesmente morte, a Morte é uma cousa que aos senhores nem por sombras lhes pode passar pela cabeça o que seja, vossemecês, os seres humanos, só conhecem esta pequena morte quotidiana que eu sou, esta que até mesmo nos piores desastres é incapaz de impedir que a vida continue, um dia virão a saber o que é a Morte com letra grande, nesse momento, se ela, improvavelmente, vos desse tempo para isso, perceberíeis a diferença real que há entre o relativo e o absoluto, entre o cheio e o vazio, entre o ainda ser e o não ser já (…)”


in Intermitências da Morte, José Saramago

Definitivamente, tenho de voltar a este livro!

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Acasos

O autocarro arrancou à hora prevista. Os ponteiros marcavam 19 horas em ponto quando ambos atravessavam o terminal apressados. Em resposta às duas vozes ofegantes que em uníssono pediram um bilhete para a mesma cidade, ouviu-se um lamentável,”acabou de arrancar”.

Eles nunca se tinham visto, cruzavam-se quase todos os dias, nos mesmos corredores, mas nunca se tinham visto. Apanhavam o mesmo autocarro repetidas vezes e para o mesmo local, mas nunca se tinham visto. E provavelmente assim continuaria a ser, caso o autocarro não tivesse partido à hora prevista.

E poderia haver motivo maior, do que um autocarro que partiu à hora marcada, para que dois perfeitos desconhecidos jantassem juntos? E se todos estes imprevistos parecem trazer consigo os ingredientes necessários para que a história se torne num verdadeiro conto de fadas, aviso-vos já que não se trata de nada disso. De todo!

Apresentações feitas, algumas avaliações depois, e o espanto dele por ela nunca ter reparado nele ultrapassado, eis que chega a hora do café. Com o café vieram os amigos dos amigos em comum, as conversas de ocasião e as opiniões divergentes, que ele tentava atenuar com sorrisos e um grande esforço para se mostrar desinteressado do programa sobre futebol que passava na televisão.

E como ainda tinham umas horas pela frente até que chegasse a hora do próximo autocarro, seguiu-se o passeio pela cidade. Ela falava das suas opções, dúvidas e incertezas. Ele mostrava-se confiante nas suas escolhas, falava dos planos futuros com uma enorme segurança mas sempre com uma constante necessidade de referir as ” ex namoradas”. Ela ria-se, cada vez que isso acontecia, ria-se por dentro. No seu rosto apenas transparecia um leve sorriso. Às vezes calava-se porque gosta do silêncio. Ele não entendia e não desfrutava desse silêncio. Quebrava-o sempre que possível com qualquer observação.

Os dias foram passando e o silêncio nela era cada vez mais intenso. Ele não entende o silêncio. Não se tratava de um silêncio envergonhado, e medroso. Não era aquele silêncio cheio de vontade de conhecer e dar a conhecer mas demasiado tímido para se quebrar, tornando-se até constrangedor, e que nos deixa um aperto no estômago. Era um silêncio pacífico, desinteressado e longínquo. Um silêncio bom mas que tanto está ali como pode estar noutro lado qualquer. Mas de qualquer forma ele nunca entendeu o silêncio.

Ele não foi o homem da vida dela. O seu grande amor. O homem da vida dela foi e é o filho. O seu único e verdadeiro grande amor!!

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"Para acabar de vez com a cultura"

indiea asked: Foste tu que escreveste o texto "Acasos"? Amei...

:)

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Figueira de Castelo Rodrigo

Figueira de Castelo Rodrigo

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